Desfruto de um privilégio exuberante, encontrar-me, frequentemente, com professores da escola pré-universitária. São manhãs de final de semana discutindo o cotidiano de sala de aula, filosofia da educação, formação de professores, problemas de comportamento de alunos e colegas de profissão e em alguns casos, conteúdos específicos.
Um competente professores de Língua Portuguesa me relata algo de uma escola estadual onde leciona. Um ambiente com alunos de periferia, de sintomática violência, dificuldades de domínio de turma, estudantes com sexualidade à flor da pele e dificuldades de relacionamento entre alunos e famílias.
O professor observa o problema do bullyng e como isso interfere no aprendizado, na comunhão entre alunos-alunos-professores. Todos reclamam. Originário de família negra, de vida sofrida, dificuldades econômicas para viver e sustentar os pais doentes, o mestre de sua ciência, utiliza a paixão que tem pela música, pelo violão, pelo texto dramático, para estabelecer um vínculo que proporcione um apaixonamento entre educação e indivíduo. A diretora reclama do uso do violão, que para a medíocre, é uma forma de enganação usada por aqueles que não querem lecionar. O professor entra para a sala de aula, substitui a reza, pela conversa sobre a importância da convivência harmoniosa dentro e fora da sala de aula. Discute a necessidade de resolver-se com dignidade e respeito quaisquer diferenças. Acentua que na vida e na sala de aula, dialogar é preciso. Esse diálogo, diz ele para seus alunos, precisa envolver professor-aluno, professor-professor e alunos e alunos. A própria prática do bullyng carece ser dialogada entre os envolvidos todos.
Articula o conteúdo gramatical requerido pelo projeto pedagógico da escola com o tema bullyng. Chama os alunos ao quadro e solicita a formulação de frases para as análises gramaticais requeridas pela política educacional brasileira. Os alunos debatem, em nível de intelecto o assunto, enquanto compreendem as regras da língua nacional. De repente, o mais valentão dos estudantes, o xerife da sala, agressivo que tem sido, vem ao quadro e pede a palavra ao professor, perguntando se pode chamar também, frente do quadro, o fulano que ele tem apelidado e que anteontem deu uma surra no pátio da escola. O professor, carinhoso, dialogante, negro, humilde e firme, permite, mas se prepara para o controle da situação. O valentão, diz que entendeu a mensagem dada na aula, no texto produzido e nos conteúdos e que gostaria de reconhecer perante os colegas seu erro na prática do bullyng. Abraça o estudante ferido na alma e no corpo, pede desculpas, pede que mereça sua amizade daqui em diante. Se abraçam. Faz tempo que isso aconteceu e o tempo mostrou que não era apenas emocionalismo, as atitudes mudaram.
A diretora e a equipe pedagógica chamam o professor no consultório gabineterial e lhe advertem. Segundo as "educadoras", ele é demagogo, populista e amigo demais dos alunos. Por causa desse sistema pedagógico do professor de Português, os estudantes estão fazendo comparações entre Diretora, equipe pedagógica, taxando-as como demônios da escola e erigindo o mestre em excelente professor. Ao ver delas ele precisa tratar os alunos com rigor, sem conversa e no grito. Mais tarde, uma destas lhe confessa ser analfabeta funcional.
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